Crítica | Um Homem Diferente - Engenharia do Cinema

Quando não está interpretando Bucky/Soldado Invernal, Sebastian Stan sempre escolhe projetos que o desafiem ir além de sua capacidade. Por isso, possivelmente veremos ele conquistando seu primeiro Oscar nos próximos anos.
Seus dois filmes lançados de 2024, “O Aprendiz” e este “Um Homem Diferente”, foram disponibilizados quase no mesmo período, e renderam a ele indicações como ator de comédia e drama, no Globo de Ouro.
Enquanto no primeiro ele demonstrava as camadas e doideras de Donald Trump, neste ele interpreta um homem que resolve mudar drasticamente de vida e fica louco por conta disso.
Após enfrentar vários processos para curar seu rosto deformado por conta da neurofibromatose, o aspirante a ator Edward (Stan) aceita ser cobaia de um tratamento que oferta uma possível cura. Ao se deparar com o resultado positivo, e viver uma nova vida, ele tem seu caminho esbarrado com Oswald (Adam Pearson). Então, ele passa a perceber que nem tudo era como ele esperava que fosse.
A parte mais maluca do roteiro de Aaron Schimberg, é que ela é levemente inspirada na própria vida do próprio Pearson, que possui neurofibromatose e já realizou 39 cirurgias para tentar reverter sua situação.
Com muito bom humor, e sutis referências a David Lynch (com o clássico “O Homem Elefante”) e Woody Allen, facilmente entramos na mente de Edward e Oswald. Mesmo sendo muito similares em algumas questões, suas consciências operam de formas distintas.
Isso porque estamos falando de um filme dividido em dois tempos, onde em um primeiro vemos Stan dar um show e estar irreconhecível. Com uma atmosfera mais triste e sombria, sentimos os seus dramas, receios e medos de Edward diante da sociedade.
Ao mesmo tempo onde ele se aproxima da vizinha Ingrid (Renate Reinsve), que demonstra um afeto por ele desde o primeiro momento.
Já no segundo, esbarramos com um Pearson que começa a comer pelas beiradas e roubar a cena com seu carisma e naturalidade, e é totalmente o oposto do primeiro, mesmo vivendo na mesma condição.
Em uma atmosfera mais noventista e leve, somos transportados a uma outra trama e que já trabalha o fato de Edward passar a ser um antagonista.
Schimberg sabia que poderia ter partido para dois caminhos nesta trama, o drama novelão ou uma comédia com pitadas dramáticas e, creio que por conselho do próprio Pearson, escolheu a última opção.
Assim como no recente “A Substância”, o cineasta também usufrui dos usos das cores amarelo, vermelho e branco para representar os sentimentos dos personagens, sem colocar isso nos diálogos.
Essa inserção acontece em três momentos distintos, e quase sempre no apartamento de Edward. Elas representam sua tristeza e solidão, a descoberta da vida da paixão e o vazio que suas decisões o levaram.
O mesmo ocorre com Oswald, porém há um excesso de tonalidade vermelha e azul (que representa a paz interior e exterior) ao seu redor.
“Um Homem Diferente” é mais uma grata surpresa deste ano, que merece um melhor reconhecimento do público.
