Minissérie de ‘Cabo do Medo’ estica sem necessidade uma história que daria melhor no cinema

“Cabo do Medo” foi um dos mais marcantes filmes da parceria entre Robert De Niro e Martin Scorsese. Lançado em 1991, a produção ainda rendeu ao ator uma indicação ao Oscar por seu papel de Max Cady. No entanto, essa produção já se tratava de uma refilmagem de um clássico de 1962, em que o ex-presidiário era interpretado por Robert Mitchum, com Gregory Peck interpretando o advogado de cuja vida ele faz um terror.

Por sua vez, essa releitura em formato de série que foi lançada pela Apple TV+ tem como foco a obra original escrita por John D. MacDonald e o próprio longa de Scorsese (que assina a produção junto do próprio Steven Spielberg). Dividida em oito episódios, ela troca o protagonismo da vez, além de fazer algumas “alterações” para se encaixar no padrão hollywoodiano atual.

Agora, ao invés de Tom Bowden (Patrick Wilson), o protagonismo cai para sua esposa Anna (Amy Adams), que vive uma vida tranquila até descobrirem que o ex-condenado por assassinato Max Cady (Javier Bardem) saiu da prisão e está atrás deles. Sedutor e manipulador, ele começa a transformar a vida da família Bowden em um verdadeiro inferno.

Entrar em um parâmetro comparativo com o clássico chega a ser uma ofensa, visto que 60% da história foi alterada e aumentada para se somar à metragem dos 10 episódios dessa minissérie.

Se as outras adaptações conseguiram contar essa mesma história em volta de duas horas, essa nova versão parece que foi feita por um aluno que colocou qualquer coisa em uma redação só para entregar o trabalho conforme foi solicitado.

Antes, Tom era visto como o verdadeiro herói da história, mas agora ele passou a ser o marido banana que, na primeira brecha, o roteiro faz ficar de lado na história. Em compensação, eles extrapolam ao colocar Anna não apenas como protagonista, mas ao tentar criar uma subtrama entre ela e Max nos últimos episódios que não apenas afasta o espectador de torcer pela família, mas também o deixa com a sensação de “estão enchendo linguiça sem necessidade”.

Embora Bardem, Wilson e Amy estejam excelentes em seus papéis, inclusive com direito ao retorno de Juliette Lewis (que esteve no clássico de 1991 como a filha dos Bowden) em um papel-chave e que casa muito bem com o perfil dela de atuação, o show fica por conta de Malia Pyles.

Intérprete da misteriosa Nevaeh Valentine, sua subtrama se casa perfeitamente com o que está sendo retratado por Max. Inclusive, ela chega a dar mais medo que o próprio ator espanhol em boa parte da produção.

A nova versão de “Cabo do Medo” tenta trazer uma história em uma nova roupagem, mas não consegue funcionar da devida maneira e estraga uma ótima oportunidade de não mexer com um clássico.