‘Acampamento Miasma’ não sente vergonha em zoar o Woke e prefere rir do bizarro

Cena de 'Acampamento Miasma'

Em tempos em que a cultura woke é debatida constantemente no cinema e na cultura pop, “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” serve como uma reflexão sobre o assunto. Escrito e dirigido pela cineasta Jane Schoenbrun (“Eu Vi o Brilho da TV”), que é trans e ativista da causa, parece que ela fez aqui uma autocrítica sobre o quão uma parcela barulhenta do movimento e a própria indústria do cinema optam por jogar no lixo oportunidades de ouro.

Como seu alter ego, ela insere como protagonista Kris (Hannah Einbinder), uma cineasta que fez grande sucesso com uma produção queer em um festival de cinema. Contratada por um estúdio para realizar um novo filme da franquia “Camp Miasma”, ela resolve ir conhecer Billy Presley (Gillian Anderson), que interpretou a protagonista do primeiro longa e mora no mesmo cenário onde aconteceram as gravações. No entanto, à medida que a relação delas aumenta, um cenário inusitado passa a acontecer, ao mesmo tempo que ela almeja que Billy volte a interpretar a personagem no novo reboot.

Após uma abertura que remete ao que foi visto em franquias como “Sexta-Feira 13”, na qual vemos uma inúmera quantidade de filmes de qualidade pífia, games e utensílios que foram feitos para a franquia “Camp Miasma”, o roteiro de Schoenbrun opta por dois caminhos totalmente inusitados, mas que acabam funcionando: uma crítica às futilidades woke na indústria e uma mensagem sexual maluca em torno das protagonistas.

O primeiro tópico é bem percebido durante boa parte da projeção, pois, logo em seu primeiro encontro, Kris discute com Billy o quão importante é inserir a mensagem queer dentro da franquia “Camp Miasma”, principalmente por conta de passagens vistas como transfóbicas e retrógradas. Nisso, a atriz veterana demonstra não apenas desprezo por esse pensamento, como a faz refletir que isso não vai dar certo, visto que os filmes da cinessérie são vistos como slashers simples. Nada mais além disso.

Além disso, a cineasta faz, de forma sarcástica e sutil, a inserção de diversos product placements dos alimentos consumidos pelas protagonistas durante essa conversa. Visto que o próprio discurso de Kris joga contra apoiar marcas como KFC, doces industrializados, etc., mas ela sempre os consome em massa, boa parte da comédia do filme se dá nestes tópicos da hipocrisia da personagem.

Em outro momento, durante uma reunião de Kris com os executivos do estúdio, pode ser visto que além dos responsáveis pelo filme há a presença de uma consultora queer. Esse profissional é responsável por identificar se o filme está dentro ou não das regras da cultura woke.

Conforme a história vai tomando corpo, Billy vai explicando de uma forma sexual o quanto a franquia pode ser vista sob outra perspectiva, principalmente se ela aborda de forma nua e crua a perda de virgindade de uma garota na faixa dos 20 anos. Embora a própria protagonista diga em boa parte do filme que não entende bem do assunto na prática.

Sem descambar para o explícito, Jane Schoenbrun opta por deixar não apenas o sexo, mas também assuntos como a morte e a adolescência serem os fios condutores das experiências que ela passa a explicar para Kris de uma forma aberta. Inclusive, a química entre Hannah Einbinder e Gillian Anderson é bastante natural neste ponto e elas conseguem segurar sozinhas cerca de 70% sozinhas.

“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” consegue ser mais uma grata surpresa deste ano, e por conta da coragem em críticar de forma sarcástica o moviemeto woke, pode ser que consiga ainda uma indicação ao Oscar 2027 em melhor roteiro original.