‘O Sorveteiro’ é tão ruim que consegue causar desconforto até em um picolé vencido

Diante do sucesso de “Terrifier”, o cineasta Eli Roth percebeu que era o momento perfeito para voltar a executar seu tão sonhado leque de produções trash, que remetem aos sucessos dos anos 1970 e 1980. Com o sucesso de bilheteria e crítica com “Feriado Sangrento” (que até hoje se discute se terá uma continuação), ele resolveu realizar “O Sorveteiro”.

Embora não tenha nenhuma ligação com o clássico de 1995 de mesmo nome, o filme tem sido um enorme fracasso de público e crítica: custou US$ 5,5 milhões e arrecadou apenas US$ 4,4 milhões mundialmente.

Além disso, Roth enfrentou uma série de polêmicas por ter usado uma empresa de Inteligência Artificial para realizar uma série de animações que estão presentes no filme. Mesmo assim, ele alegou que ela foi usada apenas “em uma parte muito pequena de algumas cenas do filme”.

A história acompanha a misteriosa aparição de um sorveteiro (Ari Millen), que entrega às crianças de um bairro sorvetes que as transformam em macabras assassinas ao ouvirem uma simples melodia. A única exceção é o jovem Jared (Charlie Zeltzer), que é intolerante à lactose e não consumiu o doce, além de seus colegas Mia (Kiori Mirza Waldman) e Tommy (Shiloh O’Reilly), que também conseguiram driblar a maldição. Logo, eles terão de se unir para conter a força maligna que assombra o bairro.

Embora o conceito criado por Roth possa ter sido interessante e funcionasse no papel, na prática a execução falha. Se por um lado ele usufrui do humor negro para “mascarar” o teor violento de boa parte das mortes, por outro ele usa a desculpa do “trash” para esconder a péssima qualidade do filme em si.

Em produções assumidamente ruins dos anos 1980, como “A Bolha Assassina” e até mesmo “O Vingador Tóxico”, a graça era que as tramas eram ruins, mas levavam a sério ao extremo. Só que aqui acontece o oposto.

Mesmo que boa parte das mortes seja executada com efeitos práticos, o que as torna bastante impactantes, o cenário muda ao tentar estabelecer uma conexão com o espectador.

Na sequência da primeira chacina das crianças contra os adultos, o desconforto pode não apenas fazer o público desistir do filme, mas também provocar a sensação de que aquilo não terá nenhuma conclusão plausível ou justificativa, ao contrário do que ocorreu na cena da liquidação em “Feriado Sangrento”, que conseguiu entreter e propor uma reflexão.

Quanto à caracterização do Sorveteiro, diferentemente de Art, o Palhaço de “Terrifier” (que por si só já possui uma presença assustadora em qualquer cenário), o antagonista aqui parece ter saído de um filme porno dos anos 1970, por conta de seu bigode fino e sorrisos aleatórios. A única coisa em comum entre eles é que nenhum dos dois fala e ambos espalham o caos por onde passam.

“O Sorveteiro” facilmente entrará na lista dos piores filmes de 2026 de muitas pessoas, e se tornou uma mancha difícil de apagar da filmografia de um diretor que foi apadrinhado por nomes como Peter Jackson e Steven Spielberg.