‘Ponto Sem Retorno’ funciona como filme de ação pipoca, mas derrapa no drama

O cineasta Ridley Scott é um dos mais importantes nomes do cinema. Aos 88 anos, ele não tem medo de entregar filmes que reflitam sobre o que ele considera bom ou um mero entretenimento pipoca. Ao mesmo tempo que nos entrega bem-sucedidos filmes como “Perdido em Marte”, ele também aparece com bombas como “O Conselheiro do Crime”. Neste “Ponto Sem Retorno”, parece que ele está beirando mais o lado positivo.

Tratando-se de uma adaptação do livro de Peter Heller, o longa é mais um filme pipoca que foi dividido em dois estilos: o primeiro sobre como viver em um cenário pós-apocalíptico e o segundo com tiros e explosões. Se for assistido exatamente com este propósito, a diversão consegue ser garantida.

A história se passa em 2035, quando o mecânico Hig (Jacob Elordi) é um dos poucos sobreviventes de uma pandemia que exterminou boa parte da humanidade. Vivendo uma rotina pacata na companhia de seu cão Jasper e fazendo constantes visitas ao seu amigo Bangley (Josh Brolin), ele está apenas sobrevivendo. No entanto, tudo muda quando ele esbarra com um fazendeiro (Guy Pearce) e sua filha Cima (Margaret Qualley).

Durante os primeiros 30 minutos, Scott procura apresentar o quão depressiva e monótona é a vida em um cenário pós-apocalíptico. Embora alguns saqueadores apareçam de vez em quando, Hig e seu cão viajam de monomotor por diversas regiões dos EUA que foram dizimadas, em busca de suprimentos e gasolina. Inclusive, a fotografia de Erik Messerschmidt (vencedor do Oscar por “Mank”) faz essas cenas ficarem mais belas de se verem na tela grande. Por isso, escolha a melhor que estiver ao seu alcance. 

Nitidamente carregando traumas do passado, o grande “descanso” dele está em seus encontros com Bangley (que também o enxerga como um filho e aprendiz) e nas interações com Jasper, que é o último elo entre ele e sua falecida esposa.

Ao conseguir estabelecer essas conexões, o filme passa para o segundo ato, que possui não apenas mais momentos de suspense, mas também de aventura. Inclusive, uma das melhores sequências do longa mostra Brolin nitidamente homenageando o personagem Rambo por conta do teor de ação inserido.

Porém, o principal problema na narrativa é a falta de desenvolvimento no teor dramático do filme. Existe uma cena em específico que necessitava mostrar que determinado personagem passou por algo fatal, mas o público sequer consegue se emocionar. Se o momento tivesse sido melhor trabalhado na narrativa, o impacto teria sido muito maior.

O mesmo pode-se dizer do próprio ato final, onde embora a história tivesse trabalhado para que isso tivesse acontecido da devida forma, parece que houve um corte seco feito pelo próprio Scott na sala de edição.

“Ponto Sem Retorno” é um Ridley Scott operando no modo pipoca, onde o único propósito é entreter o público com cenas de ação e da natureza em uma tela grande.