‘Digger’ vai na contramão do que Tom Cruise tem entregado nos cinemas nos últimos anos

Por conta do crescente fracasso nas bilheterias de “Digger”, pouco se fala sobre o novo longa estrelado por Tom Cruise sob a direção do aclamado diretor Alejandro G. Iñárritu, vencedor do Oscar por “Birdman” e “O Regresso”. Desenvolvido em clima de mistério ao longo dos últimos sete anos, o projeto foi vendido como o responsável por possivelmente dar o Oscar de melhor ator para Cruise.

Ao ser lançado, sua premissa acabou dividindo grande parte do público e da crítica, visto que, em um primeiro momento, trata-se de mais um título sobre apocalipse e aquecimento global. Porém, “Digger” consegue ser muito mais do que seu material promocional revela. Por isso, haverá um pouco de spoilers no final deste texto.

A história acompanha o poderoso empresário do petróleo Digger Rockwell (Cruise), cuja empresa se torna responsável por um acidente que desloca diversas pedras de gelo gigantes, que vão causando o apocalipse mundial aos poucos. Então, ele se une a outros homens poderosos para tentar impedir o pior.

Em um primeiro momento, pensamos que se trata de uma crítica direta a empresários como Elon Musk e até mesmo ao ex-presidente Trump, por conta da interpretação sarcástica e hilária de John Goodman para o Presidente Compson. Porém, conforme a história vai ganhando mais contornos, vemos que a crítica se dirige ao ser humano em geral.

Se por um lado Digger errou ao não fiscalizar sua empresa melhor e pensar apenas em dinheiro, os ativistas que o criticavam usavam jatinhos e consumiam produtos e alimentos à base do mesmo material. Sim, esse tipo de assunto é levantado pelo filme e capta a hipocrisia do ser humano de forma nua e crua.

Só que poderia ser mais um filme genérico sobre o assunto, mas como estamos falando de uma obra de Alejandro G. Iñárritu, claro que existem alguns detalhes técnicos que fazem a diferença. Em “Digger”, este tópico é a mixagem de som. Por abordar assuntos e situações incômodas, a acústica constantemente causa incômodos no espectador, principalmente por apostar em tons agudos e gritantes. Por isso, tente ver na melhor qualidade que estiver ao seu alcance.

O principal destaque vai para a imersão na sequência do discurso de Digger, que mescla o sarcasmo do personagem com a hipocrisia do ser humano, em um excelente trabalho de Tom Cruise. Além de estar irreconhecível no personagem, a ponto de fazer a equipe de maquiagem concorrer ao Oscar nesta categoria, temos seu papel mais complexo desde Les Grossman em “Trovão Tropical”. Será uma afronta se ele não for indicado ao Oscar 2026.

Partindo para tópicos como a fotografia, é inevitável não se lembrar dos trabalhos de Wes Anderson durante boa parte do longa, visto que Iñárritu opta por enquadramentos mais simples para focar apenas no exagero que é mostrado em cena.

“Digger” é mais um caso de filme que possivelmente será notado no futuro, quando uma parcela do público vai perceber algo óbvio: não é porque um filme não lucrou que ele deve ser desprezado.

Agora começam os spoilers! Leia por sua conta e risco.

Após a história se revelar como uma peça teatral, ao invés de um filme de ficção propriamente dito, o foco narrativo muda drasticamente. O roteiro ainda tenta criar uma breve subtrama com Curtis, o ator que interpreta Digger na peça, e sua preocupação com a filha que está em um avião indo para os Estados Unidos.

A sensação chega a ser, por um breve momento, a de um trem que andava em uma viagem tranquila e do nada passou a descarrilar. Claro, referências a “Birdman” acabam surgindo, embora não na mesma qualidade, pois não há o aprofundamento desta subtrama.

Ela começa a avançar um pouco mais quando tomamos consciência de que os eventos foram reais e o próprio sobrinho de Digger (vivido por Jesse Plemons) investiu na peça como uma forma de a população rir da desgraça que aconteceu com o mundo há mais de 25 anos.

Inclusive, a discussão entre Curtis e a diretora da peça é o único ponto alto deste momento e reflete não apenas o que tem acontecido na indústria com algumas produções virando peças ativistas gratuitas, mas como poderiam ser trabalhadas de uma forma mais aprofundada. Curiosamente, neste arco é nítido que houve uma citação constante ao que o próprio Cruise combate para não acontecer em seus filmes.